10 de Dezembro de 2017 Cícero Araújo
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Esperança. Meteorologista diz que o ano novo deve apresentar chuvas acima da média histórica

 

A estiagem que já dura mais de 6 anos na Paraíba está com os dias contados. A informação é do PhD em Meteorologia e pós-doutor em Hidrologia de Florestas, Luiz Carlos Baldicero Molion. De acordo com o pesquisador da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), os efeitos do fenômeno climático “La Ninã”, que corresponde ao resfriamento das águas do Oceano Pacífico, favorecem chuvas acima da média, principalmente no Litoral, Cariri e Sertão, até meados de 2019. Baseando sua previsão no método de similaridade, o meteorologista diz que 2018 deverá apresentar chuvas acima da média histórica, semelhante ao inverno ocorrido no ano de 2000.
 
Molion lembra ainda que, faltando menos de 30 dias para 2018, o inverno previsto é baseado no método conhecido como similaridade, ou seja, quando é realizada uma avaliação global do clima para encontrar em anos passados características climáticas semelhantes as que estamos vivenciando agora. Além disso, o fenômeno La Niña no Oceano Pacífico, segundo o pesquisador, é sempre um bom sinal de inverno no Semiárido brasileiro. No entanto, segundo esse mesmo método, o ano de 2019 não deve dar sequência aos dias chuvosos em virtude de uma retomada do fenômeno El Niño.
 
 “Quando temos um La Niña forte, temos chuva no Nordeste. Esse fenômeno começou a se instalar no mês de agosto deste ano. Os dados coletados nos últimos meses mostram um intenso resfriamento das águas do Pacífico. Uma área de 40 milhões de km² de água fria e com profundidade de até 200 metros, volume de água muito grande, ou seja, a temperatura está fria e não vai mudar, o que nos garante um inverno bom pelo menos para 2018”, explicou o meteorologista. 

 

Estiagem gera impactos além da falta de água

Cenário. Para Molion, seca moderada de hoje equivale às severas de antigamente

 

Luiz Carlos Molion afirma que o Nordeste já passou por outras secas tão severas quanto a que estamos vivenciando hoje, embora nenhuma tenha sido tão devastadora. “O problema é que hoje temos um impacto social e econômico muito mais severo que há 20 anos, por exemplo. Tivemos muitas outras estiagens piores que essa, como a de 1919, a da década de 30, a de 1958 e 1959. Toda vez que ocorreu um El Niño forte no passado, as secas foram intensas, mas só do ponto de vista de falta de disponibilidade de recursos hídricos”, pontuou.
 
O meteorologista comenta que as secas moderadas de hoje equivalem às secas mais severas de um século atrás. “A população daquela época era bem menor, e as atividades econômicas existentes eram apenas agricultura e pecuária de pequeno porte, ou seja, o impacto social e econômico não era tão sentido quanto agora. Temos uma população muito maior, o que também aumenta a demanda de água para consumo humano e animal”, explicou Molion.
 
A Agência Executiva de Gestão das Águas (Aesa) registra que 58 dos 127 reservatórios hídricos da Paraíba estão em situação crítica, ou seja, com menos de 5% do seu volume total.  A reserva hídrica do Estado está com menos de 11% de sua capacidade. 
 
Dos 223 municípios, pelo menos 196 foram relacionados como afetados pelos efeitos da estiagem. A maior parte do Estado (172 cidades) é abastecida atualmente pela Operação Carro Pipa do Exército Brasileiro. E mesmo com a chegada das águas do Rio São Francisco, a maioria dos municípios abastecidos pelo Açude Epitácio Pessoa (Boqueirão) também foi incluída na lista de emergência.
 
“Já cheguei a passar mais de 10 dias sem água na torneira. O que ainda salva é um poço artesiano que temos no bairro. Mesmo assim, se a água da Transposição não chegar logo ao Sertão, pra liberarem pelo menos água de Coremas pra gente, não sei como vai ser, porque o açude daqui mesmo faz anos que secou completamente”, disse a dentista cirurgiã Gabriella Araújo, moradora da cidade de Santa Luzia, no Seridó Ocidental, localizada  44 quilômetros de Patos, conhecida Capital do Sertão.

 

Transposição: Eixo Norte pronto em 2018

Enquanto cidades do interior da Paraíba agonizam sem água e dependem exclusivamente do abastecimento realizado por carros-pipa do Exército Brasileiro, o Ministério da Integração Nacional não informa com clareza a data de término das obras do Eixo norte da Transposição das águas do Rio São Francisco, mas garante que a água do Rio São Francisco deve correr por todos os canais no primeiro trimestre de 2018. Atualmente, as águas já percorrem 45 km do Eixo Norte entre Cabrobó e Terra Nova, em Pernambuco.

O Eixo Norte possui 260 km de extensão em três metas, e deve beneficiar diretamente os estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Segundo a assessoria do MI, em relação ao andamento das obras, as metas 2N e 3N estão em fase de conclusão, com 99,5% e 98,40% de execução respectivamente. A meta 1N, que havia sido interrompida em decorrência da paralisação do serviço prestado pela empresa Mendes Jr., então responsável pela obra, já foi licitada, retomada e está em pleno andamento com 92,47% de execução física. 

Água está quase acabando

Aesa. Até o último dia 30, Paraíba só tinham 11,6% do total que os 127 açudes monitorados podem acumular 

 

Se as mudanças climáticas prometidas pelo fenômeno ‘La Niña’ não se concretizarem, como prevêem os estudos do pesquisador Luiz Carlos Molion (UFAL), a Paraíba e o Semiárido nordestino amargarão o sétimo ano consecutivo de seca em 2018. Dados da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa) mostram que o Estado tinha, até o último dia 30 de novembro, apenas 439 milhões de metros cúbicos (m³) de água. Esse volume corresponde a 11,6% do total que os 127 açudes podem acumular. 

Na análise do professor e pesquisador na área de Recursos Hídricos da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Francisco Jácome Sarmento, se não chover com frequência e em volume suficiente para encher os mananciais a água que resta nos reservatórios da Paraíba só serão suficientes para abastecer a população até o primeiro semestre do ano que vem. “Hoje, nem o Eixo Norte (da Transposição) pode ser uma alternativa. Ninguém tem um ‘Plano B’. A única alternativa é rezar para que São Pedro não faça essa seca perdurar por mais um ano”, disse Sarmento. 

 

 

 

Por Fernanda Fiqueiredo 



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