13 de Novembro de 2017 Cícero Araújo
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Na zona rural. Em 128 escolas paraibanas, falta infraestrutura, material e professores formados

 

As dificuldades de quem estuda em escolas localizadas na zona rural da Paraíba vão desde a precariedade na infraestrutura física, a falta de materiais didáticos e a atuação de professores sem a formação adequada. O resultado se reflete diretamente na qualidade do ensino e rendimento dos alunos. Em nenhum dos dez municípios com o maior número de matrículas em escolas da zona rural paraibana, a meta do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), de 2015, foi alcançada por todas as unidades educacionais.
 
O descaso com as escolas da zona rural é tanto que, atualmente, há 128 unidades na rede pública da Paraíba sem infraestrutura adequada, como água tratada, rede de esgoto, energia elétrica e banheiro dentro do colégio. A informação é do Movimento Todos Pela Educação. Em 2007, a entidade identificou 360 escolas nesta situação.
 
“A relação com aprendizado é direta - uma infraestrutura mais completa dá mais possibilidade de aprendizado para os alunos, inclusive por garantir melhor condição de trabalho ao professor”, lembrou o gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, Gabriel Correa.
 
O município de Santa Rita, na Região Metropolitana de João Pessoa, concentra o segundo maior número de matrículas nas escolas da zona rural. No último Censo Escolar, em 2016, eram 4.906 registros distribuídos em 14 unidades de ensino. Mas, os resultados dos últimos exames de avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) não são animadores. Só três dessas escolas conseguiram alcançar a meta do Ideb 2015 e oito ficaram abaixo da meta. As demais não participaram da Prova Brasil, que integra o resultado do índice.
 
Mãe de três filhos, a dona de casa Graça Joaquim não teve oportunidade de estudo e luta para que Krislânia, Brena e Bruno tenham um futuro com mais oportunidades. Porém, os entraves para o acesso à educação dos adolescentes são muitos. “A mais velha teve que morar em Rio Tinto porque aqui não tinha ônibus escolar para ela fazer o Ensino Médio em Santa Rita. Já os outros dois estudam aqui perto, mas a escola é muito precária”, revelou a dona de casa, que mora com a família na comunidade rural de Lerolândia, em Santa Rita.
 
Brena do Nascimento, 5 anos, e Bruno do Nascimento 13, são alunos da Escola Municipal Paulo Jorge Rodrigues de Lima. O colégio não alcança a meta do Ideb desde 2013 e os resultados do último Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostraram que os estudantes de ensino não sabem o básico das disciplinas de Português e Matemática. 
 
Sem resposta. O jornal procurou, por meio da assessoria de comunicação, a Secretaria de Estado de Educação, e as Secretarias de Educação de Santa Rita e Campina Grande, mas, até o fechamento da edição, não houve retorno.

 

Atraso no aprendizado

Nível baixo. Alunos tem problemas de leitura, escrita e interpretação

 

Os irmãos Brena e Bruno estão com a idade inadequada para as respectivas séries que freqüentam. As dificuldades na aprendizagem levaram os dois a repetir de ano algumas vezes. Brena, de 15 anos, já deveria estar concluindo o Ensino Fundamental II, mas está 5º ano. Já Bruno, de 13, é aluno do 3º ano do Ensino Fundamental I. Os dois têm dificuldades em leitura, escrita e interpretação de texto. Esses são os principais problemas dos alunos da maior parte das escolas do campo na Paraíba, segundo revelou a última edição Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). 
 
De acordo com o levantamento da reportagem, a maior parte das escolas dos dez municípios com o maior número de matrículas os alunos do Ensino Fundamental (5º e 9º ano) estão entre os níveis 0 e 2, nas avaliações de Português e Matemática. 
 
Conforme a análise da Prova Brasil, os alunos que classificados no nível de 0 a 2, na prova de língua portuguesa, são capazes de localizar as informações nos contos, como personagens, e interpretam linguagem verbal e não verbal em tirinhas. Já quando essa mesma classificação de nível aparece na prova de matemática, os alunos sabem os procedimentos básicos de contagem e reconhecem esboços geométricos por meio de gravuras, por exemplo.

 

 

Reflete a realidade. A professora e pesquisadora do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Socorro Xavier, reforça que os resultados apresentados pelos alunos nos exames do Inep são conseqüência de uma série de fatores, relacionados à estrutura física das escolas e, em particular na educação do campo, das abordagens e formação de educadores especializados na área.
 
“A ausência de assistência pedagógica e supervisão escolar nas escolas rurais; currículo escolar que privilegia uma visão urbana de educação e desenvolvimento, a falta de atualização das propostas pedagógicas das escolas rurais. Os recursos de tecnologia são ainda mais escassos”, elencou a professora.
 
Ela lembrou ainda a presença de turmas multisseriadas, que eram mais freqüentes nas escolas do campo. “De acordo com o Censo Escolar de 2011, na Paraíba existiam 2.244 escolas no meio rural e 3.079 turmas multisseriadas, em 212 municípios. Essas classes eram compostas com alunos de várias anos (tem até classes com estudantes do 1º ao 4º ano na mesma classe), com idades e níveis de desenvolvimento diferenciados, exigindo dos professores se desdobrarem para atenderem às diferentes necessidades dos educandos”, detalhou a pesquisadora.

 

Sem transporte e salas ruins

 

Em Campina Grande, os níveis alcançados pelos alunos das escolas do campo não são diferentes da realidade de Santa Rita e do restante dos municípios. Além disso, oito, das 20 escolas rurais existentes em Campina Grande, ficaram abaixo da meta no Ideb 2015, e sete sequer participaram da Prova Brasil, a principal dificuldade relatada por professores e alunos é a falta de infraestrutura física. Há casos em que alunos ficaram até três meses sem aulas por falta de transporte até as escolas. Os estudantes relataram que o problema ocorre praticamente todos os anos. 
 
Diretores e representantes de Conselho Escolar afirmam que o Governo do Estado não olha da mesma forma para as eescolas da zona rural. “A própria comunidade é quem reforma a escola. Alunos de uma das turmas de Ensino Fundamental estudam no pátio da escola porque faltam salas de aula. Já nos oferecemos para construir mais uma sala com nosso próprio dinheiro, mas o Estado não permite porque diz que o prédio é deles, e isso criaria um grande problema, caso a obra fosse mal feita”, explicou o diretor da Escola Estadual Walnyza Borborema Cunha Lima, localizada no Sítio Estreito, às margens da rodovia PB-138, há 10 km de Campina Grande.
 
Na Escola Estadual Rubens Dutra Segundo, no Distrito Catolé de Boa Vista, também na zona rural de Campina Grande, estudantes reclamam de salas insalubres, banheiros interditados, sala de informática sem uso e ônibus escolares que passam até três meses sem funcionar, sem qualquer justificativa. “Na minha sala de aula, quando chove molha tudo, tem uma parede que balança, além de ser cheia de buracos. No colégio tem três banheiros, mas dois estão interditados, então por aí já dá pra imaginar o estado desse banheiro”, disse o estudante do 3º ano do Ensino Médio, Eric Andrade, 16 anos. O jovem disse que denunciou a situação ao Ministério Público.
 
As duas escolas citadas, com aproximadamente 400 alunos cada uma, ficaram com notas muito abaixo da meta estabelecida pelo Ministério da Educação para o Ideb. A Walnyza Borborema Cunha Lima conseguiu 2,9 em 2015, quando a meta era 3,4. Já a Rubens Dutra Segundo, no mesmo ano, marcou 2,6 quando a meta era 3,1. Os gestores das instituições atrelam o resultado à falta de alunos para realizar as provas, segundo eles em virtude da falta de transporte escolar. A única característica que é unanimidade nos colégios, segundo os alunos entrevistados, é a competência e empenho dos professores em modificar a realidade dessas comunidades rurais através da educação.

 

PB recebeu R$ 86 mi para educação

 

O Governo Federal enviou aos municípios paraibanos, este ano, R$ 86.530.285,95. O montante é referente ao repasse do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação (Fundeb) nos meses de fevereiro, março, abril, maio, junho e agosto. 
 
Além do aporte financeiro do Fundeb, os dez municípios citados na reportagem ainda receberam verba de outros programas federais direcionados à Educação Básica. De acordo com dados do Portal da Transparência, os municípios cujos valores dos repasses ultrapassam R$ 1 milhão são Campina Grande, Santa Rita, Queimadas, Lagoa Seca e Pedras de Fogo.
 
Para o presidente da Federação das Associações de Municípios da Paraíba (Famup), Tota Guedes, os repasses do Governo Federal não têm acompanhado os gastos da contrapartida que os municípios empregam na educação. Contudo, ele reconheceu que muitas escolas localizadas na área rural do Estado precisam de melhorias.

 

“O valor repassado pelo Governo Federal é muito aquém do necessário para os municípios. Por exemplo, da verba da merenda, o governo só disponibiliza R$0,36 por dia por aluno, enquanto os municípios empregam cerca de R$2,10”, disse o presidente da Famup. 

 

 

 

Por Correio da Paraíba 



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