11 de Junho de 2017 Cícero Araújo
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Cortando gastos. Pesquisa aponta que 52% dos lares brasileiros foram impactados pelo cenário econômico

 

 

Inflação, desemprego crescente e crises políticas estão afetando mais do que a economia: a confiança do consumidor também não vai nada bem. Se antes a aflição era com a qualidade de vida, hoje o aumento do preço dos alimentos e a economia estão no pódio de preocupação dos consumidores. Para conter gastos, eles estão reduzindo em média 8% nas despesas com lazer e vestuário, mas até mesmo com itens essenciais, como transporte e educação, também entram na lista de cortes. Hoje, 52% dos lares brasileiros foram impactados pelo cenário econômico.


Esta é a conclusão do estudo anual 360° Consumer View, que abordou as mudanças nos hábitos de consumo do brasileiro em 2016.

A pesquisa foi realizada pela Nielsen, consultoria especializada em pesquisas sobre o consumo em todo o mundo, e teve como proposta investigar como o cenário de instabilidade política e retração do crescimento econômico afetaram o bolso e perspectivas do consumidor. 

 


Embora os gastos tenham caído 16%, a renda também retraiu, mesmo que em um percentual menor (12%). A renda voltou ao mesmo patamar que se encontrava cinco anos atrás, mas os gastos retraíram acima da inflação, que foi de 6,29% no ano passado. Assim, a pesquisa concluiu, em relação à renda familiar, que mesmo impactados, esses domicílios têm comprado em média mais itens que antes, embora gastando menos.  


Por outro lado, após dois anos gastando mais do que ganhavam, as famílias, na média, conseguiram equilibrar as contas em 2016. Pela primeira vez, a Classe C, que antes liderou o crescimento do Brasil, passou a controlar as despesas. Os lares brasileiros que foram impactados pelo cenário econômico (52%), são os endividados que não conseguirão pagar as dívidas, ou em que algum membro da família ficou desempregado. Eles estão concentrados na classe C, comprometendo principalmente mulheres sem ensino médio completo e jovens de até 24 anos. A pesquisa apontou que mais de 1/3 das famílias vão se endividar novamente depois de quitar as dívidas.


O professor de Economia da Universidade Federal da Paraíba, Alysson Cabral, frisou que itens como alimentação, moradia, higiene e limpeza, além de vestuário e transporte não podem ser cortados .

Recessão em dois anos reduziu PIB

 

 

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a recessão dos últimos dois anos fez o PIB do país diminuir 7,2% e aumentou a taxa de desemprego para mais de 12%. Tais fatores criam um cenário de incertezas que aumenta a carga de estresse e diminui a qualidade de vida das pessoas. 

Um levantamento realizado pela Sodexo Benefícios e Incentivos apontou que 48% dos brasileiros diminuíram a frequência de atividade física durante o último ano e todos apontam uma só causa: a crise. 

Quando perguntado se a crise causou alguma adequação na rotina de exercícios, 64% afirmaram que sim, sendo que a alteração mais mencionada (46% dos casos) foi a prática de atividades em parques e na rua, antecipando a relevância do fator preço sobre esse comportamento. Para 12%, a adequação foi mudar de academia, para 14% foi alterar o plano e para 9% foi optar por algum programa esportivo gratuito. 


“Sabemos que atividade física é super importante tanto para saúde das pessoas, como para o bem-estar, inclusive mental, além da qualidade de vida que proporciona. Isso é um consenso. Por outro lado, estamos observando há alguns anos uma crise econômica no país. Em função dessas constatações, perguntamos: será que a crise econômica está impactando a prática de atividade física? Nossa intenção é entender o impacto da crise sobre quem pratica. Quem não pratica ficou de fora da análise”, explicou o diretor de Sustentabilidade da Sodexo Benefícios e Incentivos no Brasil, Fernando Cosenza. 

Aplicado online, o questionário contou com respostas de 1.133 pessoas de todo o país. Por ser uma amostra aleatória, não houve o recorte por estado, região ou até mesmo faixa etária, segundo Cosenza. “Fomos positivamente surpreendidos. Quase 66%, ou seja, mais de 700 pessoas, responderam dizendo que praticam atividade física. Perguntamos se a crise levou a fazer algum tipo de adequação na rotina de atividades físicas e 28% disseram não terem feito adequação nenhuma”.

 

Troca de marca tem sido usual

 

Se em 2014, quando a recessão teve início, trocar a marca dos produtos consumidos era uma medida pouco popular entre os pesquisados, ficando em sexto lugar entre as medidas para economizar, atualmente tornou-se a primeira ação para quem quer continuar comprando determinado produto, mas o similar está num preço mais em conta.Pelo menos 42% dos brasileiros brasileiros trocaram por marcas mais baratas, enquanto 22% afirmaram continuar a comprar as mesmas marcas de antes, mas consumindo menos para reduzir os gastos.


As vendas nos chamados “atacarejos”, estabelecimentos conhecidos pela venda de produtos com preços mais competitivos e em maior quantidade, aumentou 12,5% no ano passado e a expectativa é que a média seja mantida neste ano.

 

De acordo com o professor Alysson Cabral, no ano passado, os supermercados tiveram crescimento de 1,58% no faturamento e queda de 4,3% no número de itens comercializados. 
“O segmento de atacarejo já representa uma fatia importante no faturamento das grandes redes que atuam no país, como o Carrefour (Atacadão) e  Pão de Açúcar (Assaí). Para enfrentar essa mudança de perfil, o Walmart, outro gigante do setor, já está modificando o perfil dos hipermercados do grupo para aproximá-lo do perfil dos atacarejos.

 

Outro setor que pode ser apontado como exemplo é o de informática. As vendas de computadores, notebooks e tablets nos últimos anos caíram, principalmente porque as empresas adiaram a renovação das máquinas utilizadas. No setor de vestuário, os consumidores também têm demorado mais para renovar o guarda-roupas”, explicou.

Para Cabral, algumas mudanças são bastante eficazes para reduzir os gastos do orçamento. “Primeiramente, se deve procurar um fornecedor que ofereça o mesmo bem ou serviço por um preço mais baixo. Depois, a opção é substituir os itens consumidos por similares mais em conta e, no caso dos bens duráveis, a exemplo de veículos, eletrodomésticos ou eletroeletrônicos, adiar a troca do bem. Por último, o consumidor tem que mudar seu perfil, reduzindo o consumo”, esclareceu.


No entanto, de acordo com a pesquisa da Nielsen, antes de reduzir o consumo de alimentos, bebidas ou itens de higiene, beleza e limpeza do lar, 58% dos entrevistados adotaram outras medidas, tais como reduzir gastos com lazer fora de casa. Além disso, 18% dos lares declararam não ter feito nenhum tipo de mudança orçamentária no ano passado. 

Deixando de praticar esportes

Pesquisa. 59% afirmam que, além de preços, o fator que mais influencia são disponibilidade de tempo, motivação e distância

 

Ajudando a entender as adequações da crise, um levantamento relevou que preço é o fator que mais influencia na prática de atividade física (59% dos entrevistados), seguido pela disponibilidade de tempo (57%), motivação (33%), distância do local onde pratica (20%) e companhia de amigos (8%). Isso confirma a relação direta entre a crise e a alteração dos hábitos relacionados ao exercício físico.

Para as empresas, menos atividade física pode significar funcionários menos saudáveis e menos produtivos. Apesar disso, poucas empresas brasileiras adotam programas formais de incentivo: 82,3% dos respondentes informaram que suas empresas não oferecem programas de atividade física. Neste sentido, há uma oportunidade para que empresas contribuam para melhorar a qualidade de vida de seus colaboradores também no quesito saúde e bem-estar, conforme conclusão da Sodexo.

“Infelizmente, o número de empresas que promove alguma ação para estimular a prática de atividade física é muito baixo. Mas talvez o nosso levantamento possa inspirar algumas organizações a mudar esse cenário e contribuir ativamente para minimizar os efeitos negativos da crise sobre essa questão.

Há muitas formas de fazer isso, desde promover ações de conscientização, organizar grupos para práticas esportivas ou até mesmo oferecer benefícios relacionados à atividade física”, comentou Cosenza. “Incentivar a prática de atividade física gera resultados positivos, inclusive para os empregadores”, concluiu.


Para o professor da UFPB, Alysson Cabral, cidades maiores, a exemplo de João Pessoa e Campina Grande, possibilitam a substituição do lazer por outro mais em conta ou até mesmo gratuito, sem, no entanto, abdicar da diversão. 

O analista de sistemas Cyro Farias pratica corrida de três a quatro dias por semana e já frequentou academia, além de ter sido adepto do ciclismo. No entanto, apenas a corrida permanece no seu repertório de exercícios físicos, o que costuma praticar na orla da praia de Cabo Branco ou na Vila Olímpica. “Quanto ao preço (da academia), para mim influencia diretamente na questão da qualidade, tanto dos equipamentos, quanto de infraestrutura.

 

Para quem corre, é essencial ter ar condicionado no ambiente devido à temperatura corporal elevada no momento da atividade. Eu não gosto de pagar caro para correr num ambiente abafado e com esteiras ruins e esse é um dos motivos que me faz desistir de malhar às vezes”, explicou.
Além disso, ele afirmou que as academias que possuem a infraestrutura que ele precisa costumam ser distantes de onde mora. “Então, além do gasto no treino, teria com gasolina.

A crise não é motivo para ficar parado. Você não precisa esperar ela passar para queimar calorias, pois existem várias opções gratuitas ou baratas como caminhar, correr ou até mesmo fazer exercícios em casa. Tem aplicativos de celular que ajudam nisso e acho que no final depende da força de vontade de cada um”, comentou Farias.


Por fim, o analista comentou que com a corrida não tem muitos gastos como teria com academia, por exemplo. 

Poupar para quitar dívidas

 

De acordo com a pesquisa da Nielsen, 77% das pessoas que estavam poupando de alguma forma diante de incertezas. Eles economizaram, principalmente, para pagar as contas em dia (40%), manter o padrão de vida que alcançou (22%), garantir os estudos próprio ou dos familiares (17%) e suster a casa própria que conquistou (11%). Eles estavam concentrados na classe AB, com menos de três pessoas, e com a presença de donas de casa mais maduras (acima de 50 anos).

Em relação às alternativas para driblar a turbulência na economia, além de procurar o Autosserviço para se abastecer, os lares estavam mixando mais os diferentes formatos para fazer suas compras, frequentando, em média, sete canais.

Os formatos menores, como Mercearia, Padaria, Porta a Porta e Vizinhança, foram os destaques entre as famílias impactadas. A procura por promoções foi outro escape para esses domicílios. O abastecimento e a reposição, por meio de produtos mais baratos e/ou promocionais, têm até 13% mais importância nos impactados em comparação com os não impactados.

A busca por itens e embalagens econômicas ocorreu, em especial, nas cestas de Bebidas Não Alcoólicas e Limpeza, que foram as mais prejudicadas nos lares impactados. 

O estudo aponta que, em Bebidas Não Alcoólicas, 75% das categorias sofreram a troca por marcas mais baratas entre os impactados (vs. 50% não impactados) e 54% do volume movimentado foi em troca com produtos mais baratos (vs. 50% não impactados). Em Limapeza, 98% da perda de importância da cesta nos lares vieram dos impactados. Por outro lado, Bebidas Alcoólicas ganharam destaque devido à redução fora do lar.

 

 

Celina Modesto 



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