5 de Novembro de 2017 Cícero Araújo
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Patrimônio em risco. Por causa do avanço tecnológico, bandidos agem com violência para levar veículos

 

Treze veículos são roubados por dia na Paraíba, de acordo com o 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com dados do ano passado, computados junto ao sistema de inclusão de bloqueios do Detran-PB. O número por si só é alarmante. Não bastasse isso, a modalidade de furtos praticamente desapareceu e os bandidos agora tomam os veículos com arma em punho, rendendo os proprietários no meio da rua, o que faz o crime se tornar ainda mais perigoso para as vítimas. 
 
O furto se caracteriza quando o veículo é levado sem a presença do dono, normalmente mediante arrombamento. Já no roubo, o veículo é tomado com violência ou grave ameaça. Segundo o delegado Getúlio Machado, titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos da Capital (DRFV), a Secretaria da Segurança não dispõe de dados que separem as duas modalidades mas, o cotidiano da delegacia mostra que, a evolução tecnológica dos veículos dificulta o arrombamento. "A velha chave mincha foi aposentada. Agora os bandidos metem a arma na cara do cidadão, em qualquer lugar da cidade e tomam o carro. Está cada vez mais perigoso", disse. 
 
No Anuário, feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança e que reúne dados criminais do País, referente a 2015 e 2016, a taxa de roubo, calculada a partir da proporção de um furto ou roubo para cada 100 mil veículos, aumentou 47%. O percentual menor que o aumento de ocorrências se deve ao fato de a frota ter crescido mais que os roubos ou furtos.

 

Sem hora nem lugar

Evitando um fim trágico. Delegado alerta que nunca se deve reagir em caso de roubo

 

As dificuldades impostas pela tecnologia para levar carros ou motos sem enfrentamento com o proprietário fez com que o ladrão desse tipo de bem deixasse de ser um agente discreto, se tornando audacioso e perigoso. 
 
Com isso, não existe mais aquela tese de que é preciso o veículo estar em local deserto ou escuro para que o crime aconteça. Agora, não há mais situação que favoreça ou desfavoreça a ação do bandido. Pior para os cidadãos de bem.
 
O delegado Getúlio Machado lembrou que o alerta de não reagir é cada vez mais necessário, nessa modalidade de crime.
 
 “Como os bandidos sabem que não tem outra alternativa a não ser render o proprietário, acabou essa história de lugar seguro. Eles agora chegam em qualquer lugar, de preferência no meio da rua, onde há a variedade de veículos que procuram. Metem a arma na cara da vítima e levam. O que temos dito de forma insistente é ‘Não reaja! Não reaja!”, alertou.
 

O construtor Washington Suassuna foi vítima de um roubo, nessas circunstâncias. “Eu havia saído de uma obra e estava indo para a outra quando foi abordado por dois homens, a pé, que saíram do acostamento e se colocaram na frente do carro, um deles com uma pistola na mão, me obrigando a parar. A única coisa que deu tempo de fazer foi descer do carro. Embora eles estivessem calmos, só passou o pior em minha cabeça. Pensei em meus filhos, minha família.
 
Graças a Deus não fizeram nada comigo”, lembrou. Dizendo-se agraciado com uma bênção, o construtor recuperou o veículo meses depois. Estava com placas clonadas e sendo usado por um morador de Natal (RN).

 

Mulheres são os maiores alvos

 

Outro dado sobre a ação dos bandidos é que as mulheres são as vítimas prediletas dos assaltantes. “É a lógica da fragilidade. Afinal de contas, apesar de a bandidagem agir com violência, o assaltante sempre vai buscar a maior facilidade, mesmo de arma em punho. Por isso, mulheres e, de preferência, acompanhada de crianças, o que aumenta a condição de fragilidade, são as vítimas preferidas”, acrescentou o delegado.
 
Motos são a maioria. Os dados da DRFV mostram que, quando se trata de carro roubado, o índice de recuperação do bem é de 80%. O mesmo não se pode dizer quando o objeto é uma moto, que compõe a maioria dos veículos roubados ou furtados na Paraíba. 
 
“Apesar dos números, podemos dizer que a situação de carros está dentro de um patamar tolerável no Estado. Agora nossa grande preocupação é com motos. O número de motos roubadas é alarmante e o índice de recuperação não é o mesmo que os carros”, disse o delegado Getúlio.
 
Com relação aos carros, a preferência dos bandidos é por veículos populares, na faixa de preço de até R$ 45 mil. 
 
“São carros mais fáceis de vender. Afinal de contas, o bandido que não rouba por encomenda, o que representa maioria, precisa encontrar mercado para receptar o roubo. Se ele ficar com um produto muito caro na mão, terá mais dificuldade de vender e quanto mais tempo ficar com o carro, maior a possibilidade de ser pego”, explicou o delegado.

 

Mais difícil detectar clonagem

 

Uma vez roubados ou furtados, os veículos irão para três destinos mais recorrentes: clonagem, desmanche ou utilização em outros delitos. O primeiro deles é o mais frequente, segundo Getúlio Machado. “O dado que tem mais chamado nossa atenção ultimamente, além da predominância da clonagem como destino dos veículos roubados, é o aprimoramento dessa clonagem. Está cada vez mais difícil identificar um veículo clonado. Apenas olhando para ele já pode-se dizer que é impossível. Alguns que apreendemos aqui, passaram semanas nas mãos dos peritos, para que a clonagem fosse descoberta”, disse.
 
Um detalhe importante das novas clonagens é o uso de substâncias químicas na adulteração dos números identificadores do veículo. “Antes eles usavam ferramentas de gravação e, em alguns casos, só olhando já dava para perceber que havia adulteração no chassi, nos vidros, na carroceria. Hoje, até com os exames químicos, feitos pelos peritos, é difícil, porque eles usam agentes químicos que dissolvem a numeração original para receber uma nova gravação”, explicou Getúlio. Para o comprador de veículos usados, não há como detectar uma clonagem, segundo o delegado.

 

Vantagem? Nem tanto. Apesar de toda a perfeição da clonagem, há detalhes que podem alarmar o crime. Segundo Getúlio, os bandidos clonadores costumam revender os veículos por preços muito abaixo do mercado. “Não há como o mercado negro competir com preços das lojas legalizadas.

Portanto, quem compra carro com valor muito abaixo da média de mercado, pode até não estar ciente da clonagem, mas sabe que algo errado há com aquele bem, por questão lógica”, alertou. Nesse caso, uma vez confirmada a clonagem, a pessoa que estiver de posse do carro reponde pelo crime de receptação de produto roubado, que tem pena mínima variando entre 3 e 8 anos de prisão. 


 

Por Ainoã Geminiano 



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