A Delegacia de Defraudações e Falsificações (DDF) de João Pessoa recebeu este ano oito denúncias de exercício ilegal da Medicina. O número, no entanto, pode ser ainda maior, já que a delegacia só investiga casos em que há estelionato. “Se for só exercício ilegal da profissão a denúncia fica na delegacia do bairro”, explicou o delegado Lucas Sá. 

Comete estelionato a pessoa que se identifica como médica sem o ser. Há casos, porém, em que um médico legítimo pode estar exercendo a medicina ilegalmente por não estar devidamente registrado no conselho profissional, por exemplo.

“Acontece muito no interior do estado. Tem alguns médicos que vêm do Rio Grande do Norte e não estão registrados aqui”, contou o chefe da fiscalização do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB), João Alberto Morais Pessoa.

Ele afirmou que os casos de falsos médicos são mais raros, e que o CRM-PB se deparou com cinco ou seis nos últimos quatro anos, principalmente com falsificação de diploma. De acordo com o profissional, a própria população pode ajudar na fiscalização. “No portal CRM tem um espaço chamado ‘Cidadão’, no qual é possível consultar a situação de um médico através do número do número do registro profissional ou do nome completo”.

Lucas Sá contou que a DDF também recebeu este ano mais de 40 denúncias de exercício ilegal da profissão de corretor de imóveis, mais 20 envolvendo personal trainers e aproximadamente 15 falsos advogados.

“Todos os casos são revoltantes, mas os problemas causados por falsos médicos podem ser irreversíveis. É importante que a população denuncie sempre que souber de algo”, comentou.

Mais vítimas denunciam acusado

Cerca de 30 pessoas procuraram a Delegacia de Defraudação de João Pessoa, na tarde de ontem, quando souberam da prisão do pernambucano Vinicius Silva Iglessias, de 34 anos, que estava fazendo consultas oftalmológicas sem formação profissional em bairros da Ca pital e de cidades vizinhas . Ele foi preso na última quinta-feira e deve responder por estelionato, exercício ilegal da profissão de médico, e por expor a saúde de outras pessoas a perigo.

De acordo com a delegada Vanderléia Gadi, que está a frente da investigação, o homem foi encontrado realizando atendimentos gratuitos no Centro de Referência da Juventude do Valentina Figueiredo, na capital. Após a realização da consulta, o paciente comprava os óculos com a representante de uma ótica no mesmo local. A mesma ação já havia ocorrido no Alto do Mateus.

“Eles procuravam núcleos sociais dos bairros para propor um dia de consultas gratuitas, só que depois o paciente tinha que comprar os óculos lá. Nisso temos duas questões: a primeira é que o suposto oftalmologista não era médico e a outra é que não sabemos se os óculos, cuja chegada estava sendo prometida para setembro, seriam realmente entregues”, explicou Vanderléia Gadi.

Segundo ela, o homem confessou que recebia R$ 400 do dono de uma ótica em Olinda (PE) para realizar as consultas. Ele afirma, entretanto, não se lembrar do nome da ótica nem saber o nome completo da pessoa que o pagava. Se todos forem identificados será possível indiciá-los também por formação de quadrilha, conforme explicou a delegada. A Polícia Civil investiga ainda a participação de outra pessoa que também atuava como oftalmologista.

Só na quinta-feira, pelo menos 64 pessoas foram atendidas pelo falso médico.
 
 
 
 
Bárbara Wanderley e Katiana Ramos